Abrindo a porta do armário

Abrindo a porta do armário
Como foi me me revelar pro mundo

Volta e meia alguém me pergunta como foi comigo sair do armário, me assumir, ou como eu gosto mais, me revelar (passa um ar de mistério né?). Até hoje, eu tive sorte destas perguntas virem de pessoas que realmente queriam saber mais sobre a minha história ou queriam que eu dividisse um pouco da minha experiência por que estavam justamente pensando em fazer isso e/ou passando por isso.

Claro que muitas coisas a gente acaba não contando, por que não sei pra vocês, mas se abrir não é assim tão simples e muitas vezes mexe em feridas que ainda não estão totalmente cicatrizadas e comigo a coisa não funciona diferente.


Passei por muitos momentos doloridos desde o momento que comecei a me descobrir, às vezes penso que me auto aceitar doeu mais do que me jogar pro mundo, me descobri adulta, por mais que hoje eu enxergue várias atitudes na infância e adolescência, acabei me conhecendo com mais ou menos dezenove anos, não acreditava, cheguei a pensar que era uma “fase”, uma curiosidade e só. Os sentimentos explodiram a minha cabeça, eu pensava que tinha algo errado comigo, com as coisas que eu sentia, pode até ser clichê, mas um filme passou na minha cabeça e eu comecei a dar sentido pra várias coisas que eu nunca tinha entendido antes, me encontrei totalmente perdida e ao mesmo tempo mais no lugar do que nunca, confuso né, mas era assim que eu me sentia.

Quando percebi, eu estava completamente apaixonada por uma mulher, me vi querendo enfrentar o mundo por ela, chorei, chorei muito, me senti diferente de todas as minhas amigas, de todas as mulheres, me senti excluída, com medo, medo da solidão, do preconceito, da rejeição, mas superei. Pode ser bobo mas o amor faz dessas coisas, cria forças na gente, depois que eu me aceitei, (eita!) o mundo ficou pequeno, eu queria gritar pro mundo que a hetersexualidade não me pertencia e que eu era mais colorida do que imaginava. (anos depois acabei me descobrindo pansexual, tem um post aqui no blog falando um pouco sobre o que é pansexualidade, só clicar aqui)


Eu literalmente comecei a me jogar mesmo, deixei a vida me colorir, como eu disse, o amor né! Me entreguei, me machuquei horrores, provavelmente machuquei outras pessoas nesse processo, infelizmente elas foram meu efeito colateral, mas prefiro pensar que de alguma forma eu também posso ter mudado a vida delas (desejo que pra melhor).

Depois de ter me aceitado e me acolhido veio o momento de me “assumir” pra família, essas coisas a gente pensa que vai conseguir planejar e fazer da melhor forma possível, infelizmente eu não tive essa oportunidade, sabe os efeitos colaterais, então alguns quiseram contribuir nesse processo, deixando ele dolorido. Sou mais uma em um milhão que foi em parte rejeitada, não teve abraço de “te amo”, de nada mudou, pelo contrário, teve olhar de reprovação, teve mágoa, teve olhar de “onde eu errei”, mas ok, eu fiquei viva, eu não fui expulsa de casa, não fui agredida e nem ameaçada, e sim eu sou grata por isso, muitas de nós não tem essa sorte.

O tempo foi meu melhor amigo nessa fase, e claro nao ter passado por ela sozinha também, tive apoio dentro e fora da família, e foi o que me manteve em pé e com o tempo as coisas foram pro seu lugar e hoje a cada dia que passa eu esqueço um pouquinho mais de como foi naquela época, claro que felizmente se as coisas tivessem dado errado eu teria um lugar pra ir e teria como me manter, e isso infelizmente precisa ser levado em consideração quando a gente decide que vai meter o pé na porta do armário. (eu sei que todo mundo diz pra gente se jogar pro mundo e viver nossa vida, mas calma, às vezes a gente precisa conseguir se manter financeiramente e psicologicamente pra poder dar esse passo tão importante.)


Hoje, vai tudo bem obrigada! Minha família me respeita, nos respeita, respeita minha relação e na real, ama a pessoa que eu amo, o que eu vejo como um dos maiores presentes por tantas lágrimas que derramei. Infelizmente nesse caminho eu também perdi pessoas, sabe os amigos? A família que a gente escolhe e tudo mais? Alguns se foram, se afastaram ou simplesmente sumiram, foi triste, mas a intolerância tem dessas coisas né, as vezes ela é maior do que o sentimento de amor que envolve uma amizade e de certa forma te ajuda a manter longe quem não irá agregar em nada na tua jornada. Mantenha por perto quem te ama e te respeita!



Ainda sigo na minha luta diária, todo dia a gente desconstrói mais um pouquinho e se revela mais um pouquinho, eu só lamento do mundo não girar na mesma velocidade que eu, ele ia ser tão mais colorido.

ps: com amor, Pâmela <3

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